
Notícias Contábeis
Geopolítica redesenha cadeias de fornecedores e amplia pressão sobre empresas
A competição entre grandes potências, os conflitos armados e a busca por cadeias de suprimentos menos vulneráveis encerraram um período excepcional de estabilidade para as empresas. A avaliação é do professor de Relações Internacionais Oliver Stuenkel, na abertura do Fórum Encadear, promovido pelo Sebrae na quarta-feira (14), em São Paulo.
Para ele, o risco geopolítico passa a integrar de forma permanente as decisões de investimento, produção e escolha de fornecedores. "Turbulência virou regra e precisa ser incorporada no planejamento", afirmou.
Um mundo multipolar
Stuenkel lembrou que a hegemonia de uma única potência após o fim da Guerra Fria foi uma exceção histórica. A ascensão da China e a disputa crescente com os Estados Unidos abriram uma fase em que decisões econômicas voltam a se misturar a preocupações de segurança nacional. "Estamos entrando em um mundo multipolar", disse, acrescentando que "as empresas precisam entender que a instabilidade não é uma fase passageira".
A mudança aparece na reorganização das cadeias produtivas, com a volta de políticas de reindustrialização e o peso crescente da segurança na escolha de parceiros comerciais. "Ninguém pode depender de um único fornecedor ou de um único mercado", afirmou, ao defender que as empresas identifiquem parceiros confiáveis e pensem desde já em um plano B diante de rupturas.
Oportunidade para o Brasil
Segundo o professor, o país pode ganhar espaço nesse rearranjo por manter relações com diferentes polos e não estar envolvido nos principais conflitos internacionais. "O Brasil pode se apresentar como um parceiro ideal para diversificação", disse. A vantagem, porém, não elimina a exposição a choques externos: ele citou a crise no Estreito de Ormuz como exemplo de como conflitos distantes afetam o agronegócio brasileiro, dependente da importação de fertilizantes.
Para Carlos Eduardo Santiago, gerente nacional de Acesso a Mercados do Sebrae, as mudanças globais também abrem portas. "Às vezes, um fornecedor vai ter uma migração de planta produtiva. Isso traz desafios, mas também pode trazer oportunidades", afirmou.
Novas exigências na relação com fornecedores
Executivos de Embraer, Danone, L'Oréal e Globo apresentaram como as transformações globais mudam a relação com a cadeia de suprimentos. Qualidade, preço e capacidade de entrega continuam centrais, mas passam a conviver com inovação, sustentabilidade, diversidade, certificações e acompanhamento tecnológico.
A Embraer reúne cerca de 1.400 fornecedores diretamente ligados aos produtos e mais de 5.000 considerando toda a companhia. Leonardo Garnica, líder de inovação corporativa, afirmou que "a cadeia precisa andar na mesma velocidade da produção" e que a empresa trabalha para capacitar fornecedores e ampliar o acesso a financiamento, porque "não adianta uma empresa avançar e o restante da cadeia não conseguir acompanhar".
Na Danone, a relação com pequenos produtores de leite inclui assistência técnica, capacitação e agricultura regenerativa. Taisa Costa, head de Sustentabilidade, informou que as iniciativas com a cadeia reduziram em 50% as emissões de CO2 e em 43% as de metano, e que 60% do leite adquirido já está associado a impactos positivos nas dimensões social, ambiental e econômica. "Quando a gente fala de desenvolver a cadeia, está falando de fazer o produtor prosperar junto com a empresa", disse.
Na L'Oréal, a agenda envolve compras sustentáveis, diversidade de fornecedores e metas de clima, natureza e economia circular. Para Helen Pedroso, diretora de Responsabilidade Corporativa e Direitos Humanos no Brasil, "a agenda financeira e a agenda extra-financeira precisam caminhar juntas".
Reconhecer as diferenças entre os parceiros
Na Globo, o desafio é levar essas exigências a uma rede de cerca de 40 mil fornecedores, de grandes companhias a pequenos negócios. Mauricio Gonzalez, diretor do Centro de Serviços Compartilhados, defendeu caminhos de capacitação ajustados à maturidade de cada empresa: "Não dá para olhar uma pequena empresa e uma grande companhia da mesma maneira". Em iniciativa com o Sebrae, 30 pequenas empresas participaram de uma imersão em ESG e todas chegaram à certificação.
A trajetória da Mogai ilustra o caminho. Segundo o CEO Franco Machado, a empresa começou fornecendo soluções para a Vale e hoje atende mais de 40 grandes companhias: tecnologias criadas para a mineração passaram a ser usadas em aeronaves autônomas na Embraer e, na Cargill, uma solução desenvolvida para medir minério de ferro foi adaptada para medir grãos de soja.
Para o Sebrae, o recado às pequenas e médias empresas é se antecipar às exigências que surgem com a abertura de mercados, especialmente certificações. "O nosso papel é preparar as empresas para que elas consigam aproveitar essas oportunidades", afirmou Santiago.
Fonte: Com informações de Agência Sebrae

